Um manifesto coordenado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) voltou a colocar na agenda pública a proposta de taxação de bets como mecanismo para financiar serviços essenciais, como saúde e educação. A proposta prevê a criação da chamada CIDE-Bets, e "A reivindicação é de que se cobre, por meio do CIDE-Bets, 15% do valor apostado."
Segundo o documento assinado por entidades do setor produtivo, a taxação de bets busca também corrigir um tratamento tributário que, na visão dessas organizações, favorece plataformas de apostas em relação a outros segmentos da economia.
O manifesto, articulado pelo Fórum Nacional da Indústria (FNI), argumenta que o crescimento das apostas tem efeitos sociais e econômicos negativos. Entre as justificativas ressaltadas, está a possibilidade de adoecimento e o consumo exagerado da renda familiar por apostas, com recursos que "antes iam para a poupança, lazer e alimentação".
As integrantes do documento afirmam que os gastos com apostas "reduzem o consumo em setores produtivos" e, por isso, defendem que os recursos arrecadados pela taxação de bets sejam direcionados a iniciativas em saúde e educação, áreas pressionadas por limitações orçamentárias.
As entidades também destacam a necessidade de corrigir desigualdades no tratamento entre os setores: "O Brasil precisa de instrumentos mais efetivos para conter os impactos causados pelo crescimento excessivo das apostas. Assim como é urgente corrigir o tratamento desigual em relação ao setor produtivo - o verdadeiro responsável por criar empregos, impulsionar a renda, fomentar a inovação e sustentar a competitividade da economia", escrevem as organizações signatárias.
A regulamentação do setor de apostas foi oficializada em janeiro deste ano, o que abriu caminho para atuação de operadores licenciados e a previsão de mecanismos de proteção ao apostador. Ainda assim, levantamentos mostram desafios importantes: "Levantamento do Instituto Locomotiva, de meados de junho, mostrou que seis em cada dez apostadores usaram plataformas irregulares este ano."
O próprio documento citado no manifesto aponta que "A parcela de pessoas que admitiram ter feito apostas em bets irregulares este ano foi de 61%" e alerta para a maior vulnerabilidade de pessoas com renda mais baixa e menor escolaridade, que tendem a desconhecer seus direitos nessas plataformas.
Do ponto de vista fiscal, os signatários estimam impacto relevante: "Se aprovada este ano, a CIDE-Bets entraria em vigor em 2026, com potencial de reduzir em 22,5% os gastos efetivos com apostas virtuais e prover aos cofres públicos uma arrecadação adicional de R$ 8,5 bilhões", estimam, segundo o documento. Esses números são centrais no debate, porque mostram tanto um efeito potencial de redução do gasto privado com apostas, como a expectativa de receita para políticas públicas.
Apesar da pressa das indústrias, o calendário legislativo tem apresentado obstáculos. No início do mês, a Câmara dos Deputados retirou de pauta a Medida Provisória 1.303, enviada pelo governo federal, que pretendia elevar tributos sobre investimentos financeiros, bets e fintechs. A MP também trazia medidas de corte de gastos para compensar mudanças no IOF.
Sobre a MP, "Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, as medidas de revisão de gastos públicos previstas na MP serão incorporadas a um novo projeto de lei." A ausência da MP em votação adia decisões sobre tributos que afetariam diretamente a proposta de taxação de bets.
Especialistas apontam que, se for adotada uma CIDE incidentes sobre o valor apostado, será necessário combinar a nova contribuição com reforço na fiscalização, para reduzir a migração de usuários para plataformas irregulares, e com mecanismos que protejam públicos vulneráveis. Há também discussão técnica sobre a forma de tributação mais adequada, se sobre o total apostado, sobre as receitas das operadoras, ou como instrumento regulatório para desestimular comportamentos de risco.
Além da CNI, assinam o manifesto organizações como a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), a Bioenergia Brasil e a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), entre outras.
O debate sobre a taxação de bets deve se intensificar nas próximas semanas, conforme atores públicos e privados avaliam impactos fiscais, sociais e de mercado. A proposta reúne argumentos sobre arrecadação e proteção social, mas enfrenta dúvidas sobre eficácia, regressividade e risco de deslocamento para o mercado irregular. Resta ao Congresso e ao Executivo decidir se a CIDE-Bets avança como instrumento para financiar saúde e educação, ou se alternativas tributárias e regulatórias serão priorizadas.
Fonte: Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil
As CIDE-Bets são uma proposta de nova contribuição tributária que incidiria sobre as empresas de apostas esportivas e jogos online no Brasil. A sigla CIDE significa Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, um tipo de tributo que o governo pode criar para regular setores específicos da economia e arrecadar recursos para políticas públicas.
No caso das apostas, a CIDE-Bets prevê uma taxação de 15% sobre a receita das casas de apostas, com o objetivo de destinar parte desses recursos para áreas como saúde, educação, esporte e ações de prevenção à ludopatia (vício em jogos).
O crescimento das plataformas de apostas no Brasil gerou preocupações em três principais áreas:
A decisão final sobre a criação da CIDE-Bets está nas mãos do Congresso Nacional e do Poder Executivo. Eles vão definir se a proposta será adotada como forma de financiar políticas públicas ou se outras alternativas de tributação e regulação serão consideradas.
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